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O penetrante pensamento do Zen permeia todos
os nossos fenômenos sem deter-se na consideração de suas
modalidades. Ele sabe que, na
realidade, nada vai mal em nós e que sofremos porque não compreendemos que tudo
caminha à perfeição, porque cremos ilusoriamente que algo não está bem e
que é preciso remediá-lo. Dizer que todo o
mal advém do fato de o homem crer ilusoriamente que lhe falta algo
constituiria ainda uma frase absurda, já que o "mal" de que fala é destituído de realidade e já que uma crença ilusória
- portanto, sem realidade - não poderia ser a causa do que quer que seja. Além disso, se observo bem, não encontro positivamente em mim essa crença de que me falta algo (como
poderia estar positivamente presente
a crença ilusória numa ausência?); o que constato é que os meus
fenômenos
interiores caminham como se essa crença estivesse em mim. Mas, se
os meus fenômenos o fazem,
isso não se deve à presença dessa crença, mas ao fato de a intuição intelectual direta de que não me falta
nada estar adormecida no
fundo da minha consciência, de ainda não ter sido despertada. Ela está lá, pois nada me
falta, sobretudo isso, mas está adormecida
e não produz os seus efeitos. Todo o meu "mal" aparente provém do adormecimento da minha fé na
perfeita Realidade; despertas em mim, não tenho senão "crenças" no
que me oferecem os meus sentidos e a
minha mente, que trabalha no plano dualista (crenças
na inexistência de uma Perfeita Realidade Una). Essas crenças são formações ilusórias, sem realidade, conseqüências do adormecimento da minha fé. Sou um
"homem de pouca fé", ou, mais
exatamente, sem nenhuma fé, ou, melhor ainda, de fé adormecida, que não crê senão no
que percebe no plano da forma. (Essa noção
da fé presente mas adormecida explica a necessidade que
temos, para nos libertar, de um mestre "despertador", de um ensinamento, de uma revelação; com efeito, o
adormecimento comporta precisamente a não-fruição daquilo que pode
despertar.)
À pergunta "O que
devo fazer para me libertar?" o Zen responde: "Você nada tem a fazer, Já que nunca sofreu
nenhuma sujeição e já que não existe, na realidade, nada de
que você tenha de se libertar." Essa
resposta pode ser mal compreendida e parecer desencorajadora porque encerra um equívoco referente à palavra
"fazer". No homem comum, "fazer" se
decompõe, de forma dualista, em
concepção e ação, sendo à ação, à execução do que concebeu que o homem aplica a palavra "fazer";
tudo se organizará de modo espontâneo e harmonioso no nosso
"fazer" quando deixarmos justamente de tentar modificá-lo
de alguma maneira e trabalharmos apenas em
despertar a nossa fé adormecida, isto é, em conceber a idéia primordial que temos de conceber. Essa idéia total, enquanto esférica e imóvel, não
resulta, evidentemente, em nenhuma ação particular,
não tem nenhum dinamismo específico; ela é a pureza central do Não-Agir,
através da qual passará, não perturbado, o dinamismo
espontâneo da vida natural real. Do mesmo modo, pode-se
e deve-se dizer que despertar e alimentar essa concepção não é em absoluto
"fazer", no sentido que essa palavra necessariamente assume para o homem comum, e
até que esse despertar no pensamento se traduz na vida por uma diminuição (que
tende à cessação) de todas as inúteis manipulações às quais o homem se dedica a partir de seus
fenômenos
interiores.
Vejamos a questão com
maiores detalhes. O trabalho que desperta a fé na única e perfeita
Realidade que é o nosso "ser" se decompõe em dois momentos. Num
momento preliminar, nosso pensamento discursivo concebe todas as idéias necessárias para que compreendamos teoricamente a
existência em nós dessa fé adormecida e a
possibilidade do seu despertar, bem como o fato de que só este último pode suprimir os nossos
sofrimentos ilusórios. No curso desse
momento preliminar, o trabalho efetuado pode ser denominado "fazer" alguma coisa. Mas essa compreensão
teórica, supostamente obtida, ainda
não modifica em nada o nosso estado doloroso; é preciso que ela se
transforme numa compreensão vivenciada, experimentada
por todo o nosso organismo, compreensão teórica e prática, ao mesmo tempo abstraía e
concreta - só então a nossa fé será despertada. Mas essa transformação, esse transcender a forma, não pode resultar de nenhum
trabalho direto "feito"
pelo homem comum, inteiramente cego ao que não é formal. Não existe nenhum "caminho" para a
libertação; isso é evidente, já que
na realidade nunca estivemos submetidos a nada e continuamos a não estar. Não é preciso "ir" a lugar algum, não há nada a
"fazer". O homem não tem nada a fazer diretamente para
vivenciar a sua liberdade total e
infinitamente jubilosa. O que ele deve fazer é indireto e negativo; o que deve
compreender, através de um trabalho, é a
enganosa ilusão de todos os "caminhos" que pode decidir trilhar. Quando seus esforços perseverantes lhe
trouxerem a clara compreensão de que
tudo o que pode "fazer" para libertar-se é vão, quando desvalorizar concretamente a própria noção
de todos os "caminhos"
imagináveis, irromperá o "satori",
visão real que não tem "caminho" porque não é preciso ir a
lugar algum, porque, desde toda a
eternidade, estamos no centro único e fundamental de tudo.
HUBERT Benoit. A
Doutrina Suprema, segundo o pensamento zen. Editora
Pensamento, 1997. Págs. 22 a 27.