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A idolatria da "salvação"
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Não obstante, o homem que
assim se engana poderia refletir um pouco melhor. Um dever só se
estabelece com relação a uma autoridade que o impõe. O fiel desta ou
daquela religião dirá que "Deus" é a autoridade que lhe impõe o dever de
sua salvação. Mas quem é esse "Deus" que, ao me impor algo, é distinto
de mim e tem necessidade da minha ação? Acaso não está tudo incluído em
sua perfeita harmonia?
O mesmo erro pode ser
encontrado em alguns homens cujo desenvolvimento intelectual seria
suficiente para não lhes permitir crer num "Deus" pessoal. Embora
pareçam não mais fazê-lo, se os observamos com mais atenção, vemos que
eles ainda acreditam nesse tipo de "Deus". Imaginam o seu satori, e eles
mesmos depois do satori, e eis aí o seu "Deus" pessoal, ídolo
restritivo, inquietante, implacável. É preciso que eles se
realizem, se libertem, se atemorizem diante do pensamento de não
consegui-lo, se exaltem diante desse fenômeno interior que lhes dá
esperança. Há aí "ambição espiritual" - necessariamente acompanhada da
idéia absurda do "Super-homem" que se deve vir a ser, com a
reivindicação desse vir-a-ser - e angústia.
Esse erro implica, de modo
fatalmente lógico, a necessidade de ensinar o outro. Nossa atitude para
com o outro está calcada na atitude que temos com relação a nós mesmos.
Se acredito que tenho de promover a minha "salvação", não posso
deixar de crer que tenho de levar o outro a promover a sua. Se a
relativa verdade que possuo se associa em mim a um "dever" de viver essa
verdade - dever que depende de uma idolatria, consciente ou não -,
assalta-me necessariamente o pensamento de que é meu "dever" comunicar a
minha verdade ao outro. Na pior das hipóteses, isso gera a Inquisição e
as Dragonadas; na melhor, as inumeráveis igrejas, grandes e pequenas,
que, no decorrer da História, se dedicaram ativamente a influenciar
a mente de homens que não as questionavam em absoluto, de homens
que, como se diz familiarmente, não lhes pediam nada.
A refutação desse erro é
exposta com perfeição no Zen e, ao que nos consta, apenas nele. O Zen
diz que o homem é livre desde já, que não existe nenhum grilhão ao qual
se submeter, mas tão-somente ilusões de grilhões. O homem gozará de sua
liberdade a partir do momento em que deixar de crer que precisa
libertar-se, a partir do momento em que tirar das costas o terrível
"dever" da "salvação". O Zen mostra o vazio de toda crença num "Deus"
pessoal, bem como a deplorável restrição que dela forçosamente decor-
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Um dos erros que mais
dificultam a realização intemporal do homem consiste em atribuir a essa
realização um caráter restritivo. Em muitos sistemas "espirituais",
religiosos ou não, o homem tem o "dever" de obter a sua "salvação";
nega-se qualquer valor ao "temporal" e concentra-se toda a realidade
imaginável na "salvação". É evidente o fato de haver aí também uma
idolatria, já que a realização, concebida assim como algo
excludente, não é senão uma coisa entre outras, sendo vista ao mesmo
tempo como a única "sagrada" e como Incomensuravelmente superior a todo
o resto. Toda a realidade determinante, subjugadora, de que o homem
dotava estes ou aqueles empreendimentos "temporais" passa a
cristalizar-se na iniciativa da "salvação", iniciativa que se torna a
mais determinante e a mais subjugadora possível. Como realização
significa libertação, chegamos ao absurdo paradoxo de que o homem está
sujeito ao restritivo dever de ser livre. A angústia do homem se
concentra, pois, na questão da sua salvação; ele estremece ante o
pensamento de que possa morrer sem ter atingido a sua libertação. Esse
gravíssimo erro de compreensão acarreta necessariamente inquietude,
agitação Interior, sentimento de indignidade, crispação egotista sobre
si-mesmo-como-entidade-distinta - em outras palavras, impede a
pacificação interior, a reconciliação consigo mesmo, o desinteresse pelo
próprio eu enquanto-algo-distinto, a diminuição das emoções e, em suma,
todo o clima interior de distensão que condiciona o desencadeamento do
satori.
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rá. Ele diz: "Não ponha
nenhuma cabeça acima da sua" e "Não
busque a verdade; pare apenas de apegar-se a opiniões."
Perguntarão alguns: assim
sendo, por que o homem se esforça por obter o satori? Fazer uma pergunta
desse tipo supõe, de maneira absurda, que o homem só pode esforçar-se
por obter o satori sob o jugo de um dever. O satori representa o fim da
angústia que hoje ocupa o centro de toda a minha vida psíquica, angústia
que tem como únicas tréguas as minhas alegrias. Acaso é inteligente
questionar-me por que me esforço em obter esse alívio completo e
definitivo? Se houver persistência em fazê-lo, responderei: "Porque
depois a minha vida será muitíssimo mais agradável." E, se a minha
compreensão é acertada, não temo que a morte venha, hoje ou amanhã,
interromper os meus esforços antes do seu término; se o problema do meu
sofrimento deixa de existir comigo, por que eu me inquietaria por não
mais poder resolvê-lo?
Uma compreensão acertada,
por outro lado, não impede tampouco que se ensine ao outro que não se é
obrigado a fazê-lo; uma interdição desse tipo representaria uma
obrigação tão errônea quanto a primeira. Mas o homem que compreendeu que
a sua própria realização não constitui em absoluto para ele um dever se
limita a responder quando interrogado; se toma a iniciativa de falar,
ele o faz apenas para propor com discrição essas idéias, sem mostrar
nenhuma necessidade de ser compreendido. Assemelha-se a um homem
que, tendo em casa alguns alimentos sobrando, abre a porta; se alguém
reconhece esses alimentos e entra para servir-se deles, tudo bem; se
outra pessoa não entra, tudo bem também. Nossas emoções, nossas cobiças
e nossos medos não ocupam nenhum lugar numa compreensão acertada.
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